Contos Gauchescos
João Simões Lopes Neto
- APRESENTAÇÃO
- TREZENTAS ONÇAS
- NO MANANTIAL
- CONTRABANDISTA
- JOGO DO OSSO
A força, a originalidade e o caráter inovador de sua literatura estão diretamente ligados à imaginação e a expressão com que conseguiu traduzir e superar ficcionalmente as limitações do meio no tratamento literário do regional.
APRESENTAÇÃO
“PATRÍCIO, apresento-te Blau, o vaqueano.”
“Entre o Blau – moço, militar – e o Blau – velho, paisano – ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações – casos, dizia – que de vez em quando o vaqueano contava, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca.”
“Querido digno velho! Saudoso Blau! Patrício, escuta-o.”
Em seguida, temos Blau Nunes identificando-se:
“Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichosos ziguezagues. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da lagoa Mirim; [...]”
TREZENTAS ONÇAS
→ A história gira em torno do próprio narrador, Blau Nunes.
Tropeiro, Blau levava trezentas moedas de ouro que conseguira com o patrão para realizar o pagamento de um gado que iria buscar. Descuidado, ao descansar à beira de um arroio, esquece o dinheiro, que estava no seu cinturão.
Blau apenas se dá de conta do esquecimento do dinheiro ao chegar à uma estância, onde iria pernoitar. Volta desesperadamente com o seu cavalo e seu cachorro que sempre o seguia. Ao chegar à beira do arroio, viu que o cinturão havia sumido.
Desolado, certo que seria acusado de roubo, resolve matar-se. Mas, sentindo-se tocado pela beleza da natureza e pelo significado da amizade, da liberdade, da esperança e do trabalho, desiste da idéia.
No final, Blau recupera o dinheiro: este foi achado por alguns viajantes que o encontrara no caminho.
“Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca na ressolana, estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com as trezentas onças dentro.”
NO MANANTIAL
→ Blau Nunes conta o conto e apresenta-se como testemunha deste.
“Mas, onde quero chegar: vou mostrar-lhe, lá, bem no meio do manantial uma cousa que vancê nunca pensou em ver; é uma roseira, e sempre carregada de rosas...”
Perto do manantial (sumidouro mal assombrado) vivia uma moça chamada Maria Altina, que levava sempre em seu cabelo uma rosa e cultivava uma roseira a partir de uma flor que ganhara de seu namorado. Mesmo estando para casar, esta sofria constante assédio de seu vizinho, o Chicão.
Um dia, estando em casa apenas com a avó e uma negra, Chicão tenta estuprá-la, depois de matar a velha. Maria Altina foge com seu cavalo e mete-se no manantial, onde Chicão, perseguindo-a, atola-se com a montaria. Quando chegam outras pessoas, há apenas a rosa do cabelo de Maria Altina boiando no lamaçal e Chicão preso ao cavalo. O pai de Maria Altina se atira sobre o criminoso e ambos desaparecem no lodo. A moça afundara para sempre, deixando apenas a rosa de seus cabelos, a mesma rosa da qual brotaria uma roseira futuramente.
CONTRABANDISTA
→ Blau Nunes fala, aqui, apenas como narrador e testemunha.
Na véspera do casamento da filha, o velho Jango Jorge vai buscar-lhe o contrabando do vestido de noiva. Acaba sendo descoberto; precisa enfrentar os guardas para recuperar o vestido; acaba morto, crivado de balas.
Seus companheiros levam seu corpo para casa, e lá todos ficaram tristes. Sob o poncho do contrabandista, sua mulher encontra o vestido branco da filha, junto com os sapatos, o véu e as flores de laranjeira: tudo coberto de sangue.
“Tudo numa plastada de sangue... tudo manchado de vermelho, toda alvura daquelas cousas bonitas como que bordada de colorado, num padrão esquisito, de feitios estrambólicos... como folhas de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!...”
JOGO DO OSSO
→ Blau Nunes ensina como se joga o Jogo do Osso e revela o clima e a tensão característicos das antigas festas campeiras.
No jogo estão Osoro, que está com a sorte, e Chico Ruivo, que está com azar. Chico perde tudo e acaba apostando até sua mulher, Lalica, e a perde. Depois, ela o destrata e o chama de “guampudo”. Quando Chico vê Osoro beijando e dançando com sua mulher, ele atravessa ambos com seu facão, depois foi embora.
“Vancê compr’ende? Do mesmo talho varou os dois corações, espetou-os no mesmo ferro, matou-os da mesma morte, fazendo os dois sangues, num de cada peito, correrem juntos num só derrame...”